quinta-feira, 18 de março de 2010

Greve. E eu com isso??

A Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte entrou em greve ontem. Para ser honesta, embora isso afete muito profundamente a vida de pais que têm que trabalhar e não têm uma alternativa (uma avó ou tia, por exemplo), a greve me parece justa.
Não posso falar da realidade de toda a rede, então vou me ater à escola em que meus filhos estudam.

Trata-se de uma UMEI (Unidade Municipal de Educação Infantil), pública como todas as outras. Acontece que essa escola fica localizada dentro do campus da UFMG, e é resultado de um acordo entre a reitoria da mesma e a prefeitura de BH. Dentro desse acordo, ficou estipulado que 50% das vagas seriam direcionadas à comunidade interna (professores, alunos e funcionários) e os outros 50% à comunidade em geral, vagas essas todas distribuídas por sorteio, salvo casos de vagas compulsórias, que seriam de crianças com necessidades especiais ou de crianças da comunidade interna com irmão(s) que já fossem alunos de lá (caso dos meus). Além de ser, sim, uma escola muito boa (dizem ser referência na rede pública), ainda existe o mito que envolve a UFMG. Muita gente da comunidade externa acha que, uma vez lá dentro, o filho dele vai seguir lá dentro até se formar em advogado, médico ou engenheiro, o que é um grande equívoco. Mesmo assim, as listas de espera são enormes, coisa de 200 crianças (na lista de espera!!!). O resultado disso tudo é uma escola com criança de várias classes socioeconômicas, com histórias muito diferentes: Lá tem filho de professor "pHdeus", de funcionário que só sabe criticar o governo, a direção da escola, Deus e o mundo, de aluno graduando, mestrando e doutorando, de terceirizados (nisso tem seviços gerais, fundep, tecnólogos...), de gente que veio das favelas nos arredores, de gente que pega duas conduções pra botar o filho lá, de gente que tem condições de pagar escola cara, crianças com as mais variadas necessidades especiais (deficientes auditivas, físicos, com síndrome de down, paralisia cerebral, e por aí vai). Nesse bolo todo, um professor tem que ficar 4 horas (alguns ficam 8) numa turma com 20 crianças, que podem ser uns amores, ou não. Tem professor que apanha (muito) de aluno, tem professor que é processado por pai de aluno, tem professor que fica o ano todo tentando fazer algum mais arredio participar mais, tem professor que corre atrás de tudo que for possível pro seu aluno especial poder se desenvolver... E vão seguindo, fazendo verdadeiros milagres.

Mas o mais engraçado dessa hístória vem agora: Um professor do ensino infantil, desses heróis aí, ganha fantásticos pouco mais de R$ 500 por mês, enquanto um do ensino fundamental ganha quase o dobro (se não for mais que o dobro). Isso porque muitos deles têm curso superior, pós graduação, etc e tal, e ainda sofrem grande pressão por estarem numa "escola de referência da rede pública".

Aí, você me pergunta: Com salários tão baixos e obviamente muita insatisfação, como fica o ensino? E, havendo possibilidade de greve, porque deixar meus filhos lá?
O fato é que apesar de tudo, a escola é sim muito boa, e isso é fato. Quando levei meus dois mais velhos pra lá, estava vindo muito frustrada de duas escolas particulares. Eu pagava quase R$ 800,00 para eles receberem uma educação que, francamente, se eu comprasse o livro eu mesma poderia dar em casa, além de estarem convivendo com muitas crianças da classe merda-pobre como nós que eram ensinados a achar que eram mais importantes que os outros por não estudarem "na creche" (isso tudo porque meu bairro é praticamente periferia). Depois que eles foram pra lá, o desenvolvimento deles foi notável. Ambos desabrocharam, a coisa mais linda de se ver. Depois dessa, acabei virando uma grande entusiasta do ensino público. No que a escola for falha no sentido acadêmico, nós cobrimos em casa, mas a falha na socialização das escolas particulares, nós não conseguimos resolver. Eu não quero meus filhos convivendo com filhotinhos de esnobes, quero que meus filhos cresçam vendo a realidade. Bom, isso é assunto pra muito post, e esse já está digno da Letícia, hahahaha.

Isso tudo, só pra dizer que Du e Liv estão de greve. E eu vou entrar de greve também. Portanto, celular está desligado e estarei fora do msn. Pra falar comigo, manda e-mail ou liga no fixo.

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