sábado, 19 de fevereiro de 2011

Muito de tudo

Estou um lixo. Tentando juntar os meus cacos. O #putaquepariuday do dia 08 de fevereiro foi só o prenúncio.

Quando estamos em trabalho de parto, existe um momento "putaquepariu" também, é um momento bem específico, e tenho a impressão que é o momento do maior número de desistências de aguentar sem a analgesia, o momento do desespero, de achar que você vai morrer de dor e dane-se, porque dali não dá mais pra voltar; é ali bem entre os 7-8 cm de dilatação. Não sei como é para as outras mulheres, mas para mim a sensação foi exatamente assim: Quando você acha que a dor não pode ser maior, descobre que ainda vai ter pela frente mais umas 2 ou 3 horas de trabalho de parto. Bem resumidamente, desse momento em diante você desliga, vai pra outra dimensão, se concentra, foca na sua dor, no seu corpo, no seu bebê; dali em diante as coisas simplesmente acontecem. Você sente a natureza agir e segue seu fluxo, como tem que ser. Você sente necessidade de ficar numa determinada posição que, "coincidentemente" é a posição que ajuda seu corpo a dilatar. Depois vem o "puxo", que é a vontade incontrolável de fazer força, a hora que você sente que se fizer bastante força a dor vai diminuir, e assim vai, até que, de fato, o bebê começa a descer e você sente cada pedacinho dele vindo ao mundo. Cabeça, ombros, tronco, pernas; ele inteiro. Tenho bastante fresco na memória a sensação, e juro que já senti poucas sensações melhores que essa. Além do fato soberano de ser seu filho chegando, é o momento que você pode respirar fundo e dizer: Consegui. É um rito de passagem, é o alívio da dor que te consumia, as contrações pararam, a dor desapareceu, só ficou aquele bebezinho quentinho, gostoso, nos seus braços.

Esses meus dias desde o dia 08 de fevereiro não foram nem de longe tão especiais como um parto, mas foram tão angustiantes quanto. Num determinado momento, cheguei a achar que não conseguiria chegar do outro lado. Me desesperei, quis (mais uma vez) largar tudo, estive às portas de vir aqui dizer que estava desistindo de tudo, que lutei o quanto pude mas que pra mim não dava mais. A questão ia muito além de arrumar alguém pra ficar com as crianças ou ter dinheiro pra pagar o escolar, era uma questão de realização. Fazer meu(s) estágio(s), cursar meu último ano, começar a sentir o gosto da profissão que eu escolhi, isso me faz feliz, é meu sonho. Quando eu era criança, se me perguntassem o que eu queria ser, não era ser mãe, dona de casa, ter um marido; eu queria ser desenhista. Desenhista. Eu nem sabia o que era isso lá com meus 5 anos de idade (época que comecei a cismar com isso). Mas o fato de ter esse sonho não quer dizer que eu não possa querer fazer outras coisas, não quer dizer que eu esteja disposta a abdicar de toda a minha vida pessoal, social e familiar por causa disso, e acredito sinceramente que tudo que eu tenho passado esses dias não passa do preço que tenho que pagar por não querer abrir mão, nem da minha família nem do meu sonho.

Nessa hora, começam os questionamentos: É justo com eles? Com meu marido, com meus filhos? O sonho é meu, a escolha foi minha, a "confusão" quem fez fui eu, é justo eles pagarem o preço comigo? Quero crer que sou uma mãe que passa bons valores a eles, que os ensina a respeitar as diferenças, que os ensina o valor de ser acima do ter, que dá a eles a chance de ter contato com uma cultura que eu não tive quando criança, que os ensina a reconhecer o valor do outro e a reconhecer o próprio valor, que os ensina a pensar, que os ensina a correr atrás dos seus sonhos, que os ensina a assumir as responsabilidades de seus atos (e não jogar a culpa no mundo), que os ensina a voar com suas próprias asas. Claro que isso tudo às vezes é mais o que quero do que o que efetivamente faço, mas é o que venho tentando fazer, desde o dia que Mariana nasceu. Sei que tenho muitas, muitas falhas, sei que não sou a mãe mais presente e paciente do mundo, sei disso tudo. Não vou falar agora que tudo que faço é por eles, pois não é. Claro que, como família, penso na unidade; logo, o que é pro bem de um é para o bem de todos, mas a minha luta é pelo meu sonho, e não "necessariamente" para dar uma vida melhor pra eles, isso é consequência. Eu faço o que faço por mim, porque isso me faz feliz, porque preciso estar feliz para fazê-los felizes. Não sou uma dona de casa abnegada que se coloca em último lugar não, até porque pra mim isso contradiz meu ensinamento a eles de se dar o devido valor. Eles têm que saber que têm uma mãe forte, capaz, feliz, que corre atrás de suas realizações, que não tem medo da vida. Cada um sabe de suas capacidades, e posso garantir que isso é o melhor que posso dar - e deixar - para eles.

Tudo isso me passou pela cabeça nessas duas últimas semanas. Vi meus sonhos escapando como areia entre os dedos. De repente, me vi cega para qualquer perspectiva. Não enxergava futuro, não enxergava caminho, só sentia o frio congelando a alma, uma solidão profunda, a sensação de que só eu tinha o poder de mudar a situação e não sabia o que fazer. Me senti sozinha, impotente, pobre e pequena. Incapaz. Burra. Quando se vê anos de investimento de tempo, dedicação, esforço, tirando dos seus filhos pra dar à faculdade, escorrendo pelos dedos, o que é uma maldita carteira de habilitação? Dane-se o DETRAN, a baliza, o cone, o examinador. Antes do tal exame foram dias de correria, de telefonemas, entrevistas (para contratar e para ser contratada), aulas mal aproveitadas (da faculdade e de direção), pessoas ao redor querendo te convencer que o problema dele é pior que o seu (pq, afinal, você é inteligente, bonita, tem saúde e bla bla bla, e não tem o direito de sofrer nem de ter dúvidas), pressão (de todos os lados), culpa, doença (minha, da família, da ex-futura-atual doméstica), negociações financeiras (a pagar e a receber), dúvidas, medo. Detesto sentir medo, e quando sinto medo eu fico mesmo muito mal.

Com esse turbilhão acontecendo, achei que era quase fútil vir falar o resultado do exame. Embora eu quisesse muito passar no exame e tirar a carteira, todo o resto naquele momento ficou tão maior, que eu não consegui nem ficar triste direito pela carteira. Era muita coisa ruim ao mesmo tempo, eu não poderia vir falar de uma coisa sem poder desabafar sobre todo o resto.

Resumidamente (e mais objetivamente que todo esse post-testamento-desabafo), o que aconteceu foi que eu não consegui os estágios que queria, no final da semana passada pegamos todos uma virose "das boas" (crianças vomitando a noite toda, enquanto eu, sogra e marido também estávamos doentes), a pessoa que eu tinha conseguido pra ficar aqui (e era minha última chance) também passou mal, foi para o hospital e quando saiu do hospital deu pra trás, mesmo já estando tudo acertado (e me deu a notícia na terça feira à tarde). Não conseguir uma pessoa significa não fazer o estágio, e como ele é obrigatório, significa não graduar. E aí? Faço faculdade, largo estágio e não graduo ou faço estágio, largo a faculdade e não graduo? Eu estava totalmente desestruturada pra fazer o exame, mas achei que não ir seria pior, pois não tinha como remarcar e o dinheiro já estaria perdido mesmo. Cheguei a passar no exame de rua (mas estava tão preocupada com outras coisas que nem lembro do percurso que fiz), e na hora da baliza, sem me concentrar no que estava fazendo, errei o que seeeempre erro e pronto. Depois do famigerado exame ainda fui trabalhar no estágio que paga pouco e é no horário de aula e tive que aguentar calada a mulher me dizendo, de um jeito bem grosso, que eu não sabia pensar, que ia me ensinar a ser prática, que não estava dando mais pra me passar tudo mastigadinho (trocando em miúdos, me chamou de burra mesmo). Foi a gota d'água. Fui infinitamente mais delicada do que ela pra dizer que pra eu fazer algum desenho, tenho que saber do que se trata o desenho. Não adianta ela abrir um desenho que eu não conheço, cheio de detalhes e especificações que eu nunca vi e ela não me deixa ler, e querer de cara que eu entenda que linha é aquela que ela mandou eu fazer ali. Se ao me dar uma ordem do tipo "rotaciona esse quadrado" eu tento ir para outra parte do desenho pra entender o que é aquele quadrado, ela "gentilmente" pergunta o que é que eu estou fazendo lá naquela parte do desenho se ela já está me dando "mastigadinho" que precisa rotacionar o quadrado. Tá, eu rotaciono, mas continuo sem saber o que é a porra daquele quadrado. E depois ela ainda vem me dizer que eu não estou "entrando" no desenho? Aaaaapaputaqueopariu.

No final das contas, consegui negociar com a moça que vai ficar aqui em casa (e a negociação foi até interessante pra mim), consegui o segundo estágio (que eu queria fazer), ganhei uma "promessa" de trabalhos freela no futuro (que podem me libertar do estágio "ganha pouco dinheiro e muito desaforo"), resolvi uma parte do meu projeto de pesquisa que estava me tirando o sono, toda a família já está com a saúde 100% e no dia seguinte ao exame, já mais tranquila e depois de uma booooa noite de sono bem dormida, acertei 7 das 10 balizas que fiz.

Doeu, mas eu consegui. Me quebrei em mil pedaços, descuidei de mim, da minha aparência, do meu sono, mas estou viva. Colando meus pedaços, mas com muita vontade de viver, de "fazer pérolas das cicatrizes". Meu sonho continua próximo, cada vez mais próximo. Um dia de casa vez, cada dia mais próximo.

Um comentário:

  1. Em letras grandes mesmo, pra parecer que estou gritando!!!
    VC É UMA DAS POUCAS MULHERES QUE SINTO ORGULHO...
    QUE QUERO SIM VER O CONVITE DA FORMATURA AQUI, IMPRESSO, COM HORA/ DIA/ E LOCAL...
    Tem horas que tudo conspira contra...
    Mas vai por mim... Já falei isso pra duas pessoas e ajudou e mto...
    Reza pro seu anjo da Guarda, sempre que puder, reza com pouco de tempo que tem, reza na hora de dormir ou qdo acordar, pede proteção... Pra vc e sua familia...
    Não conta pra mtos amigos o que tem em mente, que entrevista irá fazer, vc nunca sabe do coração do outro... Reza sempre pro anjo da guarda, ele vai te guardar, vai por mim!!!
    FORÇA!!!
    Do meu jeito, tô com vc...
    Bjs :)

    ResponderExcluir