Desde pequena eu sempre quis ter uma Fada madrinha, uma daquelas que aparece, vê o nosso sofrimento e, Plim!, transforma nossos sonhos em realidade. O problema com a fada madrinha é que a realidade dela dura pouco. À meia noite, vira abóbora.
Mas, criança, eu ainda não pensava na abóbora, pensava só no baile e no vestido maravilhoso. Lá pelos meus 6 anos, passamos a morar eu e minha família de favor num casebre cujas paredes tinham enormes rachaduras e o telhado ameaçava cair em nossas cabeças a cada chuva. Não tínhamos móveis decentes, estávamos fora de nossa casa, nossas coisas estavam encaixotadas e ficávamos olhando as caixas e sonhando com o dia em que teríamos pra onde levar nossas caixas e ver, enfim, nossa felicidade ser retirada daquelas caixas. Nessa época, meus pais trabalhavam dia e noite para se reerguerem e eu, embora percebesse que as coisas não eram mais tão tranquilas como antes, também não conseguia enxergar o quanto elas estavam complicadas. Quando eu tinha mais ou menos uns 9 anos, perguntei pra minha irmã o que ela faria se ganhasse muito dinheiro na loteria. Não me lembro da resposta dela, mas disse que eu daria uma casa para o meu pai, ao que a minha irmã, então com uns 12 anos, disse que não faria isso, pois achava que meu pai gostaria muito mais de ter uma casa fruto do seu próprio trabalho do que uma que viesse muito fácil. Na época entendi o raciocínio dela, mas não dei muita bola e continuei sonhando em ganhar muito dinheiro pra dar uma casa para o meu pai. Depois de um tempo, já na adolescência, achei que aquela atitude dela era uma atitude antipática e até meio arrogante, de quem acha que tem o poder de julgar o sofrimento ou merecimento dos outros. Depois eu comecei a achar que aquilo era papo furado, que ela não daria porque era uma pessoa ruim mesmo que não conseguia conceber a idéia de alguém receber um grande presente se não tivesse feito por onde recebê-lo; o que na minha cabeça não era presente, mas pagamento. Análises válidas, se eu não tivesse me esquecido que a resposta tinha sido dada por uma menina. Conforme eu ia crescendo, ia analisando a resposta como se ela tivesse sido dada por alguém com a minha idade à época.
Hoje, mais madura e levando em consideração que a resposta foi dada por uma criança, acho bonitinho a maturidade dela e sua preocupação com o real valor que as coisas têm; não o valor financeiro, obviamente; mas o valor emocional e o valor do fruto do nosso próprio trabalho.
Fazendo um paralelo com a minha vida e a maneira como interpretei aquela resposta ao longo do tempo, digamos que já passei da fase de esperar pela fada madrinha, depois pela revolta de "ninguém ver o quanto eu era merecedora" (enquanto eu realmente não era); depois a raiva e a frustração de lutar, brigar, matar um leão por dia e achar que o que recebia em troca era pouco e que a vida não era justa; e agora o momento tranquilo de enxergar os caminhos com clareza e objetividade. A questão é que a fada madrinha nunca vai vir me realizar os sonhos. Se eu quiser vê-los se tornar realidade, tenho que correr atrás, focar nos meus objetivos e não desperdiçar energia com o que não é importante. E tenho certeza que mesmo que eu nunca chegue onde desejei, cada vitória encherá a minha vida de felicidade e fará o caminho valer a pena. Como o melhor da festa é esperar por ela, o melhor da vida é vivê-la todos os dias. Vamos, sim, buscar nossos objetivos, mas vivendo um dia de cada vez, porque ontem já passou, amanhã ainda vem e todos os dias a vida se renova.
E a Fada madrinha que arrume outra coisa pra fazer, que dos meus sonhos eu mesma me encarrego.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
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amei!
ResponderExcluirbjs
Bárbara (G)
Muito lindo! Salva de palmas pra vc pelo lindo post e pela força de vontade! Eu sempre acreditei em vc e tive certeza que conseguiria alcançar seus objetivos todos.
ResponderExcluirAgora... se a fada madrinha aparecer por aí e vc for dispensar, pode dar meu endereço pra ela??? :D
Bjoks!